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Anderson C. Sandes & Poesia

Anderson C. Sandes & Poesia

By Anderson C. Sandes
Espaço do poeta Anderson C. Sandes, autor de Baseado em Fardos Reais, organizador da Antologia Quando Tudo Transborda. Graduado em Pedagogia e podcaster no Saia da Caverna. Site: andersonsandes.com.br
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O pequeno gigante
Pequeno gigante, Anderson C. Sandes O homenzinho que ora simula um colosso faz sua pose desajeitada Cheio de vazio na garganta, fala de modo raso de tudo que é profundo Alguém elogiou o personagem — o colosso e o homenzinho agradeceu alardeando modéstia Não quer subir nos ombros dos gigantes, quere-os nos seus Vai à noite dormir sem fôlego, suspirando de amores pelos livros que não leu Com um cantarolar anasalado daquela bela canção que nunca ouviu Às pressas faz uma prece: — que me perdoe o perfeccionismo, amanhã tento melhorar Acaba sonhando consigo mesmo, em preto e branco, pois é o que alcança a imaginação do grande homenzinho, que de comprido só a lista do que não cumpriu.
01:00
January 17, 2022
O velho Emílio
O velho Emílio Anderson C. Sandes In memoriam de Emílio Cordeiro de Lima Jaz a lua minguante Sobre a serena garoa Que pega fúria Horas depois da viração Emílio levanta clamando por Maria — Ali outra goteira, traz o balde Sinto o cheiro de querosene Queimando no candeeiro Oh! que agradável, ah! Dane-se a minguada lua A miserável e tímida Obscurecida agora pelo toró Que faz pingar o telhado O velho raspa o fumo co’a Navalha, repousa-o na seda Fita um lugar p’ra cuspir Antes do trago Em julho as pernas doem mais A coluna entreva Mas deixa estar Balança a garrafa Em busca de café — Maria, Maria Alumia a rede Onde finge dormir o neto Que a tudo observa A meia luz e meio olhar Escondendo o sorriso O velho, por sua vez Não disfarça a graça — Deixa eu deitar aí — Venha, vô Digo não mais ocultando o riso — Tenha medo não Diz, referindo-se às trevas Entrego a rede como oferenda E a passos largos Vou ao pote de barro buscar água Um trovão bambeai-me as pernas E penso em voltar — Tenha medo não Brada a voz pelas sombras Pura carícia Levo o caneco direto À boca, sem despejar em outro Ninguém está vendo Volto tateando, veloz Destreza de frouxos — Tenha medo não Três ou quatro baldes De goteira engrossam A noturna sinfonia Perfeita para o repouso Vem Maria do leito Perplexa e supersticiosa: — Ouviram? A rasga mortalha — Misericórdia O silêncio reinou (...) Ainda sinto o cheiro do querosene Do candeeiro de vovô Aquela rasga mortalha Vez ou outra passa por cima De meu telhado Aprendi a amar seu canto Recorda-me tudo Cada luar Cada pingo Cada cuspida antes do trago O velho pote d'água O caneco amassado Tudo permanece aqui dentro Por causa do velho Emílio Que descansa em paz
02:58
March 24, 2021