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VôtiContá

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By Macna Legends
VôtiContá é um projeto de parceria entre FBarella e Macna Legends.

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CLAUDIONOR - FBarella

VôtiContá

1x
A ENCERADEIRA - FBarella
A ENCERADEIRA Na sala um silêncio constrangedor das pessoas em volta da enceradeira parecia que nunca ia ter fim. Dr Bastos olhava para os dois rapazolas a sua frente tentando entender o estranho clima que tomava a cena.  - Ficamos assim Dr Bastos, levo o aparelho, assim que meu pai arrumar trago de volta no mesmo dia. Lançou Augusto para resolver a situação. Dr. Bastos enrolou a ponta do bigode observando de canto de olho  o moleque  mais novo que veio junto mas não dizia nada.  Horas antes o debate tinha sido intenso. Augusto não tinha nenhum problema em ajudar o pai  levando e buscando os aparelhos que concertava. O que lhe quebrava a figura eram as vezes quem o caçula Joca era incumbido de ajuda-lo. -  Faço duas viagens se for o caso pai. Argumentava para livrar-se dos préstimos do irmão.  - Vá logo e não discuta, todos precisam ajudar, além do mais seu irmão não está fazendo nada. A implicância com Joca não era picuinha pouca.  Entre os irmão havia um bom humor e brincadeiras quase sempre sadias. Mas, como em todo grupo, alguns são menos e outros mais. Augusto era o mais sério dos irmãos e Joca seu extremo oposto. Não faltavam histórias em que Joca havia levado as brincadeiras a um novo patamar.  Certa vez, por exemplo,  tanto provocou seu irmão mais velho que esse acabou lhe dando um bofete na boca. Joca recuou e começou um choro manhoso cuspindo o que a primeira vista parecia pedaços de dente quebrado. O irmão entrou em desespero, uma coisa era uma briguinha de irmãos, a outra era causar um dano desses. O castigo seria duro demais. Partiu acudir em desespero o caçula que vendo o desespero do irmão começou a rir. Os pedaços cuspidos eram na verdade  macarrão cru que ele tinha o hábito de roubar da cozinha e comer como petisco. O grande problema de Augusto com Joca era “a cara”. Joca tinha descoberto  uma “cara” que desconcentrava e causava um riso descontrolado no irmão. Uma expressão, que se bem colocada, no instante certo era irresistível. O aprimoramento da aplicação era o momento. Quando não se podia rir, quanto mais solene a situação, ali era o ponto e Augusto sabia disso e por isso evitava a todo custo que o irmão o acompanhasse em situações de trabalho.  Dr Bastos já tinha adiantado que o seu filho mais velho tinha tentado ele mesmo descobrir o defeito da máquina. Sem sucesso.  Augusto firmou os braços pra carregar o aparelho e num puxão seguro levantou-o, só o cabo.  Voltou o mais rápido que pode a peça no lugar tentando disfarçar o desacerto desistindo na sequencia ciente que teria que pegar uma parte de cada vez. Suas faces brancas mudaram na hora para um vermelho intenso que era tão vivo que um tio já tinha o apelidado de “tomate” - Como eu disse ao seu pai o Junior... - Sim sim sem problemas Dr Bastos eu... Agora era questão de vida ou morte, não poderia olhar para Joca em hipótese alguma. Sabia que estaria a espreita, somente aguardando, tranquilo, paciencioso, fazendo “aquela cara”. Sem lhe dirigir o olhar tentou uma última manobra entregando-lhe o cabo da enceradeira. - Vai levando para o carro Joca. ... - Imagina, eu te espero. Frustrado abaixou-se para pegar a parte que faltava o mais rápido que podia. Ergueu com firmeza e segurança pela parte do cabo que havia restado. O corpo do aparelho veio quase todo, exceto pelas três escovas perfeitamente alinhadas no chão. Augusto olhou desconsolado para aquelas três rodelas dispostas tão simetricamente e percebeu a sua total falta de chances contra aquela situação. Alias todos olhavam para as três rodelas, como se fossem reticências materializadas  causadoras daquele constrangedor silêncio. - É... (lançou Joca) Augusto derrotado suspirou profundo  e olhou para cara de Joca. FBarella
04:44
May 17, 2021
TRAFICANTE DE AFETOS - FBarella
TRAFICANTE DE AFETOS Lá no fim do beco isolado, num canto que ninguém vai, vaza uma cerca violada de alambrado. Passo com cuidado para não agarrar na roupa e ando um pouco numa picada de mato alto de pontas aloiradas pelo sol. O vento manso dá vida e movimento ao caminho deitando a relva em ondas.  A trilha dá numa árvore velha e anã quebrada em sua figura que a faz parecer uma senhora curvada apoiada com as mãos nos quartos.  Embaixo dela um banco improvisado onde está Jonathan olhando longe para os quintais dos velhos barracões abandonados onde não acontece quase nada, exceto pelas aves nos fios e telhados velando o entardecer. - Jonathan? - nem sei se é esse o seu nome , aliás quem sabe o que é verdade por esses dias. Quem é que pede documento a amigos recentes para checar se história bate? O que sei é que seus olhos gateados de baixo das sobrancelhas grossas e bem desenhadas parecem ignorar minha presença. - Oi Vanessa. A boca fina, tonalizada de púrpura mostra que estou enganada. Me encolho como uma tartaruga assustada enfiando a cabeça no cachecol. Ele sorri depois de falar meu nome, e quando sorri sua pinta perfeita se estica em cima dos lábios. Agora ele me fita como antes fitava o nada, com a mesma contemplação e intensidade.  Tento me inventar para parecer mais segura. Quem eu sou de verdade não me ajuda em nada, não me sinto confortável. Tudo em vão, ele parece que sabe de mim tudo e tudo que eu possa dizer ou fazer parece estar descrito num roteiro que ele leu e releu até decorar. - O que vai ser hoje? O de sempre? Finjo não ter pressa para responder e agir com tranquilidade. Em vão.  Ele me olha, seu casaco de couro marrom surrado me olha, seu jeans cinza me olha e seus sapatos sem meia me olham.  Tiro do bolso o dinheiro amassado em forma de canudo cujo o valor traz consigo a resposta. Ele recolhe  a taxa com uma quase indisfarçável frustração. Já de pé, o casaco é dobrado com cuidado e colocado no banco. Ele fica de costas e se afasta um pouco para me dar privacidade. Tiro a minha jaqueta e o cachecol e os coloco ao lado do dele. - Está pronta? Aceno que sim com a cabeça.  Jonathan volta, abre os braços só um pouco, só para que eu possa entrar. Vou de passinhos curtos até minha testa tocar o seu peito. Ele guia minhas mãos frias e tímidas até suas costas e se fecha e mim. Deito finalmente meu rosto de lado, ouço seu coração calmo, sua temperatura viva. Ele sabe exatamente o momento e me aperta. As lágrimas começam a sair, tantas que não se distinguem. Minha voz embargada pelo choro se esconde na paisagem. Apego-me a ele, como se minha vida dependesse disso. Quero esmaga-lo, que faze-lo entrar e mim ou eu nele. Quero que sinta meus seios como se fossem dele. Doloridos por ele. O tempo passa, um sinal no celular toca. Ganho 10 segundos de bônus. Me recomponho e parto.  A noite me espera na saída do beco. Mascaras descartáveis pelo chão e ambulâncias gritando apressadas retomam a realidade. FBarella
04:29
April 25, 2021
CARTA À CIDA - FBarella
CARTA À CIDA Olá,  Cida! Fiquei sabendo dos seus sentimentos e não pude deixar de te escrever como forma de te apoiar. Começo te parabenizando pela pessoa que você foi e é, e de cara te adianto que por incrível que pareça, estão todos bem. Sei o quanto você é uma pessoa "família" e sei que está sendo difícil esse novo momento em que o ninho está se esvaziando. Porém te convido a tentar um novo olhar sobre estas coisas novas.  O seria ser mãe? Talvez seja essa uma resposta fácil e alguém diga. “A Cida é mãe do Matheus”, mas é aí que, quem não sabe da história não pode saber do real valor dessa pergunta. Agir como mãe pode ser um puro instinto biológico manifestado no processo de gestação. Mas e quando esse sentimento totalmente convertido em ação é gestado na alma de uma menina em favor de seus irmãos? Sim, seus irmãos, crianças como você, com demandas tão diferentes, tão urgentes e complicadas. Quem joga nas costas de uma menina tanta responsabilidade? Quais as chances disso dar certo? Três vidas além da sua, três pessoas, não seria de se estranhar que se desvirtuassem, que sofressem, que se desviassem do caminho e da correção. Se não todos pelo menos um ou outro.  Pois é, a vida jogou nas suas costas essa complicadíssima missão. E você poderia ter feito diferente, você poderia ter ido até certo ponto do caminho, ter segurado como desse até constituir a sua própria família. Ninguém poderia dizer um “a” se você decidisse cuidar só dos seus, do seu filho Matheus, do seu marido e de você mesma. Ninguém poderia te censurar. Escapar daquela situação em que todos foram jogados já seria um grande feito. Mas você foi além, muito além, escapar não bastava, nunca foi para você uma opção. Você se salvou e salvou a todos. Foi mãe muito antes de poder ser, foi mãe dos seus irmãos. Cuidou de cada um, proveu e promoveu um espirito de lar a essas pessoas. E nessa empreita você teve absoluto sucesso. Ninguém se desviou, ninguém ficou pelo caminho. A prova disso é que sim, estão todos bem. E é agora que eu te convido a analisar os resultados disso. Todos estão bem, todos são pessoas de bem e autossuficientes, todos terão a chance de ser felizes e bem-sucedidos.  Essa chance foi dada a eles por você. Pela sua coragem, por sua fibra e empenho. Estão todos bem, e ao meu ver, essa é a sua grande vitória. Agora é hora de relaxar e aproveitar um pouco. Se a casa hoje está mais vazia, curta o silêncio e a paz, cuide-se sem culpa. Tudo que podia ser feito você fez com perfeição. Só não acostume-se demais, pois seus meninos logo voltarão, em barulhentos e felizes almoços de domingo.  E nesses, não em todos, mas um ou outro faço questão me convidar. Um forte abraço do seu fã e amigo.  Barella FBarella
04:13
April 9, 2021
A VISEIRA - Arthur Uchôa
 A VISEIRA "Escuto o trovoar do alto estandarte? O que queres?" - Disse o Tempo. "Quem muda o caminho das ovelhas?"  disse o Ideal ao Tempo  - "Não podem descobrir que sou carne, que sou o abismo, que servem a mim!" "Suponho que você queira realoca-lo  –  Disse o Tempo.  Eu só os faço seguir.   - Já o vejo! Eis o desvirtuoso." - Disse apontando para as colinas. Vislumbrando o múltiplo estava a alguém, com sua viseira quebrada, mudando o curso do bando, chamando-os para o novo. O ideal some de vista no horizonte. O bando para, ajoelha-se.  Com vestes douradas, o Ideal se aproxima do desordeiro.  - Sabe que o tempo desgasta suas coisas.  O humilde homem mantém-se prostrado. O Ideal troca as viseiras com delicadeza e palavras doces.  Diz: "Te tirei do grande perigo. Grande perigo! Volte agora meu Universo.".  Volta ao horizonte. O bando volta a caminhar em direção ao seu brilho O Ideal sussura para o Tempo.  - Dá a ele um relógio dourado e afrouxa no punho dele seu ritmo.   - A bateria acaba, diz o Tempo com um leve sorriso.   - Eu troco, replica o Ideal. O Tempo então segue com sua viseira de pulso. A observa e pensa: “Dura como o ouro, sangra a cada segundo.”  O Tempo ri encarando o brilho, estático e ignorante acerca de que com o bando, o Tempo caminha até ele.  “Que divertido é o Ideal. Sangra, e molda humanos.”   Artur Uchôa
02:30
April 6, 2021
QUE PENAS - FBarella
QUE PENAS No meu quintal caiu ontem um passarinho.  Mesmo machucado vi que era belo. Mesmo magoado seu canto era música. Lamentei o acaso triste e fiz o melhor que podia.  Recolhi... tratei sem esperanças infantis e tolas.  Velho que sou de tantos desencontros, conhecido da morte, seguia conciliado e respeitoso. A pobre ave não tinha chances e nem eu esperanças. Mas era de mim fazer o melhor que podia.  Guardo para mim as minhas tristezas. Aos outros são inúteis. As nossas tristezas para os outros são como sapatos que se deixa à porta. Dei-lhe abrigo e bálsamos anestésicos. Sorri cordial e murmurei com minha voz falha melodias alegres improvisadas. Dia a dia o pássaro não melhorava, mas também não morria. O curioso é que se vida por ali não tomava um rumo algo num canto esquecido em mim brotava. Não que me afete. Velho que sou já gostei e fui gostado. Já tive chapéu preferido. Cão caramelo adoçado e outros tipos de amigo. Se gosto, gosto e pronto. Se é para chorar, choro e pronto. Sem mimimi ou eternamente mal-amado. Deixei que de mim gostassem, fui levando e fui levado. Cantei seresta, contei segredo. Amor bom de contar segredo é amor moribundo, não é? Assim foi, não melhorava e não morria. Até que um dia fui desavisado, quase feliz, para dar-lhe o trato e contar o enredo de sempre de velho chato. E que dela? A ingrata avezinha. Na caixa nem uma peninha.  A janela tinha a fresta de ontem alargada. No muro, o Nestor de dona Guiomar, cor de cartola e com a mesma empáfia, me julgava bem seguro... lambendo a pata. FBarella
02:47
April 6, 2021
INSTRUÇÕES PARA CHORAR - Julio Cortázar
INSTRUÇÕES PARA CHORAR Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela.  O choro médio ou comum consiste numacontração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca. Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto.  Duração média do choro: três minutos. Julio Cortázar
01:26
April 1, 2021
AMPUTAÇÃO - Macna Legends
AMPUTAÇÃO  Meu dedo, meu Deus, não me quer mais. Reclama do anel do esmalte do alho Meu dedo, meu Deus... Não me serve mais. Macna Legends
00:37
April 1, 2021
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO - Mario Quintana
CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO Eu sou um homem fechado. O mundo me tornou egoísta e mau. E a minha poesia é um vício triste, Desesperado e solitário Que eu faço tudo por abafar. Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada, Com o teu passo leve, Com esses teus cabelos... E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita... A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil Aonde viessem pousar os passarinhos. Mario Quintana
01:02
April 1, 2021
ESCOTILHA - FBarella
ESCOTILHA - Olho pela escotilha do celular e vejo que estou a mais de 3000 mortos de profundidade. Há muito tempo já não tenho certeza de  que a capsula de clausura que me rodea é segura. Não posso afirmar que essa pressão não me afete. Posso estar simplesmente, já intoxicado pela loucura e tendo como manifestação a alucinação de que estou bem. Estou bem? - Olho pela escotilha do pc e vejo conhecidos sendo apanhados pelo demônio invisível.  Cada vez mais conhecidos, mais próximos.  Me lembro de aviso que vi num livro: “A maior artimanha do diabo é convencer as pessoas de que ele não existe.”  Pessoas em festas, na praia, de mascaras no que queixo negando a realidade.  Do diabo a jogada de mestre nunca foi tão acertada.  “Isso é politicagem... será que está morrendo isso tudo mesmo?..." "Tem prefeito dizendo  que morreu mais gente pra receber verba extra do governo...”  E o diabo faz as contas direitinho, não mata a todos que afeta, faz dos descrentes assintomáticos um caminho, um atalho, um túnel e pega assim até aquele mais precavido na fresta de um mínimo vacilo. - Olho pela escotilha do presente e vejo, aqueles que não posso abraçar e beijar por agora e o pior é não saber até quando e se quando.  Medo que o diabo os leve ou me leve.  Gente minha que a situação não dá outra alternativa que não seja sair no breu dessa meia noite eterna com um trapo amarrado na cara e um pote improvisado de álcool-gel na bolsa para honrar as contas do fim do mês. - Olho com meu olho cético e marejado pela escotilha da história e vejo sem acreditar. Que fizemos para merecer esse lugar? A pior situação possível com a pior pessoa possível no controle dos nossos destinos.  Me olho pela escotilha do espelho e vejo, a cada tossida sem sentido um desespero. Espero que seja só o excesso de cigarro. Um velho na fila do benefício tosse continuamente, quando arruma um breve espaço para respirar é providente e anuncia: “Enfisema pulmonar, minha filha.”  A senhora um pouco mais atrás comemora fazendo o sinal da cruz. “Graças a deus.” FBarella
02:48
March 31, 2021
PALAVRAS - FBarella
PALAVRAS Primeiro era ninguém e silêncio. Depois, acolá alguém fez sombra e logo depois o grito. Alguém ouviu? Saímos do nada e já estamos no outro? Mudo, ausência de sentido ou plateia. Logo depois, anotou para não esquecer. Descreva / desenhe / dite / agrida o silêncio / Grite Faça uma lista, circunde, aponte. Puxe uma seta, adorne, grife... faça iluminuras  Cacetinhos voadores. Carinhas tristes Despois escreva, formalize, faça que conste em ata. Protocole, fotocopie. Reconheça firma e assine. Papelzinho em branco. Silêncio. Quem escreve é o que? Maluco quieto falando sozinho? Carta de amor. Boleto. “Me lave” escrito na poeira de um vidro. C e L em meio a um coração talhado a canivete. Um exame médico dando positivo. Testamento / Certidão de nascimento. Papel fino de linho / Papel de saco de cimento. Planta baixa, lápide. Buraco cheio. Outro no ventre a caminho. Nota de esclarecimento ou de repúdio. Bilhetinho que só diz “sim”. 100 longos anos de solidão. Recadinho de batom no espelho. “Carpe Diem” escrito errado na nuca da menina chata. Mal conselho Pastor Improvisado, de beabá magro,  tropeçando na escrita sagrada, na garagem da sua casa alugada, enfiado num terno emprestado. “Ó glória..” apela ele repudiando a palavra ingrata. Já o menino não erra. Devotado e comprometido. Aplicado no catecismo, alcança a graça várias vezes. Sem medo de ser punido. FBarella
01:57
March 29, 2021
CLAUDIONOR - FBarella
CLAUDIONOR Da rua de trás, no alto, inverto a varanda de paisagem: Vejo os quintais desnudos, vento nos varais. Bagunça, mofo, mato. Um velotrol há muito esquecido esmaecido das suas cores vivas por sol e lua. Uma parte de algo que eu sei que é parte, sem saber o que é o todo, se esconde parcialmente debaixo do plástico azul cheio de poças da última chuva. A tarde cai em silêncio e da porta aberta ninguém sai. Intimidades urbanas. Uma Juliana corta as unhas dos pés ouvindo qualquer coisa no celular. O cachorro surge num ponto, cruza o espaço e some no outro. Não sei de onde veio nem para onde foi. Uma velha enxuga a testa com o pulso enquanto água as plantas com a mangueira. As tetas grandes descansam sobre a barriga parcialmente vistas pela roupa larga nas mangas. Roupa de ficar em casa, roupa de quintal. Ou não, já vi dessas na calçada, atendendo sem pudor o portão. O homem negro, de lábios grossos, sentado no arremedo de escada, parado no tempo exceto pelo cigarro que a fumaça dança. Ouve muito atento de dentro da casa algo que nem sei se é com ele ou sobre ele.  Sei que nem pisca. Como fosse sua empreita, figurar um novo Portinari. O gato se avisa da criança indiscreta, pelada do meio pra baixo, em curso e aperta o passo para parar um pouco a adiante para nada,  fingindo avistar um real perigo eminente. Um santo sem cabeça, um ferro de antena vermelho de ferrugem, uma peça de fusca. Flagro Claudionor. Esguio, branco como uma vela, a cabeleira preta emoldurando a cara vermelha curtida de cachaça que me flagra de volta. Finjo que não o vi e aperto o passo olhando para um falso algo a minha frente. De canto de olho, vejo-o me escoltando com o olhar e saudando com um sorriso cínico. Toalha enrolada esquecida no pescoço, mãos na cintura projetando o quadril pra frente. O pau branco com a cabeça igualmente vermelha perdido na pelagem longa, densa e negra. A rua acaba, atravesso para a outra calçada.  Ali nunca mais passo, intimidade demais. Urbanidades muito desnudas para voyeres não tão casuais. FBarella
02:53
March 21, 2021