Tem Método - BandNews FM

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By BandNews FM
Todas as sextas, uma análise detalhada, que foge do senso comum, sobre os principais acontecimentos políticos no Brasil e no mundo. Essa é a definição da coluna “Tem Método”, assinada por Carlos Andreazza, e que agora você vai conferir em formato de podcast. Um bate papo mais solto, descontraído, sem as amarras do tempo. Sempre dedicado a compreender o centro das questões que movimentam o país e a projetar desdobramentos e impactos na vida das pessoas. Ivan Brandão conduz a conversa com Andreazza, que faz uma leitura profunda da história ao abordar os principais fatos da semana e projetando aq
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O teatro dos hipócritas

Tem Método - BandNews FM

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Os cavalos de Jair
Delegado Chico Palha não prendia, mas batia. Investigava e escondia. Gênio violento, acabava a festa a pau. Sobrava um surdo rasgado, um jogo de baqueta quebrado, um banjo sem corda, um boleto já pago e sempre tinha um malandro que não se dava mal. O bom de ter amigo é isso: convida pro samba, paga a conta, vaza antes da batida e não espera o final. Delgado Chico Palha não tinha alma, nem coração. O samba e a curimba ele não queria. Mas dizem os malandros da praça, que ele acobertou os caras do lava-jato, que se sujavam demais, mas escondiam do patrão. Distribuiu santo e remédio, abriu a carteira, dizem até que pensava em eleição. O problema é que o bolso que abria demais não era o dele, e o chefe-xerife, recém chegado de Chicago, não queria que usassem o dinheiro da corporação. Isso até dividiu seus capangas. Briga toda hora, tiro, entrevista, bola dentro, bola fora, saíram no tapa até dentro da guarnição. De repente, e agora? Ninguém mais sabe quem manda na sua jurisdição. Aí a curimba ganha terreiro, o samba ganha escola. Na letra, Chico Palha é expulso e passa a viver de esmola. No xadrez da política, ganha um ministério. Ozônio no buraco do outro é refresco, diria o poeta. E cada Chico Palha tem a cloroquina que merece. Deixa os malandros da Portela e da Serrinha voltarem à roda. Quem sabe um cavaco chorando faz a gente tocar a vida. Cem mil na conta de cada Chico Palha. Uma hora o povo esquece.
1:09:09
August 7, 2020
Toga e chapéu de couro: editores travestidos
Pulmão mofado, ainda brado, nada muda, Guimarães. Centrão rachado, analisa Riobaldo, não passa de um feito pelo mal feito. Sela no lombo, tabaco mascado, a vida é boa pra quem vê capim e come. Editores de toga, coronéis do cerrado: ameaçou? Achincalhou? É Peixeira Mont-Blanc e a conta some. Cavalgam em campanha. Em terra batida a cruzada. Por voto, por imposto e por vacinas ainda não comprovadas. Diz que um dia “entra em desuso matar gente”. Mas, no sertão, e “é dentro da gente”, “perder a vontade de ter coragem” é lei. Daí, morrer com medo do que não se vê, só sente, faz empilhar uma penca de número e o número mesmo... nem sei. Sei que se o capitão manda, o general faz. Cabresto para ministro, advogado e capataz. Te conto o conto da nota, duzentos contos e nada mais. Te conto o conselho contado, contados os votos que pode ganhar. - Se a água chega no sertão, presidente, o sertão, prometo, vai vir lhe amar. Esqueça os que cavalgaram contigo, há sempre outro abrigo para “sestar”. E quem quiser que chegue junto, vagas abertas o ano inteiro: para aspone, nova claque, ministro da saúde e amigo do peito. Só preste atenção no relincho, pois: “Cavalo que ama o dono”, com a licença que me cabe, Guimarães, “até respira do mesmo jeito”.
1:02:27
July 31, 2020
Os jabutis estão criando asa
Fogo na floresta. Diz o rei que não pega fogo. Em nenhuma das três, aliás, o vice mandou avisar. Que seja fogo no parquinho, então, ainda que insistam na crise controlada. E mesmo que mais para zoológico - bestas à solta, metade enjaulada – não chega a ser estranho virar releitura da selva queimada. Uma delas passeia, sem máscara, rugindo besteira em francês. Mente vazia, gabinete fechado. O amigo do amigo do meu pai é juiz: dei um telefonema e fiquei livre, mas preso em um canal de tevê pago. O programa é sobre animais que se acham melhores. Não tem lei do mais forte, regem os mais diplomados. Se a ignorância fosse taxada, te digo, nenhum outro imposto seria criado. Fogem as emas do bezerro de ouro. Elas bicam, cobras picam, humanos se auto-medicam. Este é o reino das bananas, não o reino de Mufasa. A cadeia não tem topo, mas salvadores ascendem em revoada. Cidadão não! Fiscal do IBAMA cansado! Os tucanos não têm mais paz e os jabutis estão criando asa.
52:42
July 24, 2020
Falta dicionário, sobra exagero
Na semana em que a palavra genocídio esteve em voga, como diriam os antigos, Vogel deixou de comandar interinamente o Ministério da Educação. À frente do MEC, agora, Milton Ribeiro. O interino que continua firme é o da saúde. Eduardo Pazuello permanece prestigiado. General da ativa, embora os críticos digam que apenas militares reformados devessem compor o governo. Aliás, projeto de reforma é o que o Congresso espera receber do Palácio do Planalto. A tributária parece que, finalmente, vai andar. Parece... caso não haja qualquer impedimento - palavra proibida no Guanabara.
59:32
July 17, 2020
Lava, Lava-Jato
A mentira é um espaço racional, é uma cerca de fazenda. Dentro, presos, só os que escolhem no que querem acreditar. Uma mentira ruminada várias e várias vezes vira verdade. Ora propaganda de governo, ora um nome de ministro a vazar. - Qual é o zap daquela imagem de arquivo, hein? O presidente quer ligar. Dado maquiado, frisson. Decreto forjado, batom. Um chope gelado, Leblon. Conheça a verdade, o garçom e poder ir ao bar vos libertará. Os cães ladram, a caravana passa, a Força Tarefa sobe a Serra. Os políticos mentem, os cachorros “Lattes”. A mentira é um espaço institucional, uma ficha de cadastro. Preenchida; investigada; Difundida; Verba volant sem lastro. Do foco, a liberdade virou simples rabicho. Muito “cala a boca” travestido de “é o melhor para você”. Um osso roído por aplicativo, fé na caixa de socorrer. Vale um voto, vale um rio... vira-lata. A mentira é salvação, morra quem morrer.
56:22
July 3, 2020
Rachar é divino
A peste em nuvem de inseto desvia do Brasil, já tomado por outras pragas. Uma, invisível, já matou mais do que todos os outros motivos que se tem pra morrer. Outra, escancarada, mas longe dos olhos, é poeira de deserto que se tenta esconder. É curioso: a verdade castiga e a mentira afaga. As pragas, varridas pra baixo de algum tapete, destroçam, caladas, enquanto discursos de falsa altivez fingem que tiram o bode da sala. É poeira de deserto que atravessa oceanos, rumo ao interior. Deserto de ideias, mata virgem dos planos bolados. Uma narrativa confusa, é verdade, que nasce nas canetas que assinam decretos e tenta ganhar vida nas mentiras de um advogado. Do foro às instâncias, a amarga ganância, o sonho da impunidade zero quilômetro. É a desertificação da gente, que teima em querer respirar. É, a terra plana não gira, capota, e nos leva sempre ao mesmo lugar. Comendo grama em busca de salvação. Êta Bode arretado, entende do riscado, burro amarrado - no sítio - ou solto na praia do Guarujá. Desse, que desceu dos céus, foi inquilino. Preso em pastos, nada parcos, vigiado... por uma milícia de caprinos. Os cheques depositados para ajudar os meus meninos. O laranja investigado, protegido por um anjo clandestino. O reino das bananas junta as cascas enquanto o rei está dormindo. É que aqui, estender auxílio é pecado, tratar de esgoto é errado. Mentir é humano. Rachar é divino.
51:15
June 26, 2020
O Bagaço da Laranja
É dia de feira. Quarta-feira, sexta-feira, não importa. Fogos no céu, a carga chegou, vem que tem. Seleta, Bahia, da Terra. - O que o freguês quer levar? Digo “pra tu” meu patrão: até o silêncio, as pessoas... aqui, dá pra comprar. Disparo em massa, mau-olhado, trago seu credor em sete dias. É um trabalho complicado, mas a gente conversa: com um anjo, o diabo ou qualquer um dessa milícia. Há um espírito que guia essa busca: uma encarnação lavajatista. Aí você escolhe: a gente esconde ou a gente afoga. Deram aval pro arbitrário: abri de punho e chancelei junto aos meus “parças” de toga. É dia de feira. Quarta-feira, sexta-feira, não importa. Nas barracas, nos sítios e nos Palácios, a mercadoria está exposta. O dinheiro na conta, o cheque no banco, corda a esticar. - Parado! Olha o rapa! Pode se explicar. Laranja rachada: a casca é sua, o suco é de quem te pagou. Carro usado, uma cirurgia. A escola da filha de um Senador. - E o bagaço rapaz, pode ir mostrando, se eu achar vai ser pior. - O bagaço não dá, meu senhor. Não é delação, tá? X9 eu não sou. Mas, tá vendo aquele roteirista ali? Te digo o que vi: fim do pagode foi o que sobrou. Pegou, enrolou e fumou. - E depois? Depois, parece que escreveu o Brasil. Corta a cena, fumaça na Esplanada, é só uma cortina. - Cancela a operação, soldado, outra hora falamos disso. Parece que o ministro caiu. Nos tutelam interinos generais. Um suco de laranja, por favor. Coado. Naquele filtro sujo dos falsos jornais.
46:35
June 19, 2020
Quem quer dinheiro? O aviãozinho vai subir!
A taxa de ocupação dos leitos diminui. O número de mortes não para de crescer. É como se os shoppings abrissem à medida das covas, ou vice-versa. É o futuro do país depositado em um dispenser de álcool em gel. Protocolo, segurança, tênis novo, mãe gentil. O começo do fim é o fim de uma quarentena que nunca existiu. É na claque e na palma. Na mentira institucionalizada. Toda opinião é bem vinda desde que seja aos berros ungidos de glória a um deus de terno, que não teme descer dos céus ao cercadinho do Alvorada. E no dente de alho um ministério deposita sua fé. O enxofre exala, mas não cura. Liberdade para comprar, para morrer e acreditar na mentira que eu quiser. Uma cruz fincada na areia. O choro calado do pai. Um bárbaro a cruz pisoteia. Outra máscara cai. Numerar as mortes é torcer pelo vírus. Dar voz a quem deu adeus sem despedida é pecado. O Brasil assina sua própria certidão de óbito, falta ao trabalho, sem vergonha e não precisa mostrar atestado. A rampa do Planalto foi pintada de sangue e a asfixia curada com respiradores comprados com dinheiro mal pago. No país das narrativas, a incompetência dispensa licitação. Diga se há sentença pior do que, numa peste, ser obrigado a escolher um lado. Li “Deus” na nota de um real, gastei. E que o conflito seja louvado.
53:35
June 12, 2020
Briga de Rua?
“Mão na cabeça, sai agora, já para o chão”. Ou, “bom dia, senhor, documento do carro, pois não”. Diferenças... Na diferença, escrevemos nossa história de sobrevivência. Ninguém leu. Na indiferença, viralizamos. Bala, pedra, bastão. Dois lados da avenida. Corte na respiração. De joelho, um coturno, esvai-se a vida. Um meio-fio em Minnesota. Covas coletivas. Elevador de serviço. Fundo do fosso. É o destino, capitão, todo mundo vai pegar. Alphaville enche o peito, na favela falta ar. Lockdown, 'Lock n’ load'. Covid é pano de fundo. Não cabe pergunta, atira primeiro. Luta por liberdade enquanto escravos de nós mesmos. Respirar é privilégio, não é para todo mundo. Escalada da crise, da curva. Brasil subindo a ladeira. Enquanto mata-se pela cor da pele, se matam pela cor da bandeira.
51:02
June 5, 2020
PF nos olhos do outro é refresco
O peso é arremessado com a mão, voa toda a esplanada. Bate no teto, quebra o vidro, fim da paz no Alvorada. Contrapeso é tiro de canhão: da palma que bate para operação, da palma que bate na fala escalada e acaba virando tapa na cara. PF nos olhos do outro é refresco. Pimenta na sala de casa é cabresto. Pesos, freios, contrapesos. Marcha dos animais. Um espantalho bem no meio da praça dos Três poderes assina notas de repúdio e vende de monte aos jornais. A grama cresce no cimento quebrado e a doença mesmo, que mata, essa já nem lembramos mais. Peso, levanta. Contrapeso, atira. Malha o espantalho, cansa a missão. Bate, apanha. Retalho da vida. Inventa uma investigação. Se minto, tranquilo, fumaça que cobre. Mentir é bandeira da oposição. Liberdade é atividade essencial, mas foi censurada, de ofício, por alguém do alto escalão. Malhar, isso pode: General sem camisa na esteira. Carapuça sem filtro no capitão.
48:42
May 29, 2020
Passa a Boiada: os bajuladores ressentidos.
O filme é o mesmo. Há quem enxergue muitos filmes em um só. Há quem pense que ele, por si, já é tudo ao mesmo tempo. Uma reunião que jamais poderia ter sido um e-mail virou uma grande caixa de comentários de um portal de notícias qualquer. É o drama de uma família perseguida, que busca por proteção a qualquer custo. Um bando de pistoleiros que querem fazer justiça em um faroeste caboclo, na cidade que inspirou a canção. O terror de um vírus que mata. A aventura de fazer o que é proibido. O bucolismo de uma porteira aberta. A boiada passa em cinema mudo. Preto no branco, trilha orquestrada. Bala de prata, estrelismo, picuinhas. Presidentes, ministros, polícia e aspones do nada. Guerra fria, drogas não prescritas, jogos de azar. Segredos de estado, abuso de poder, varinha da fada. O filme que parou o país se passou numa sala fechada. Ternos de linho cortados, liturgia de ficção. Plano sequência da crise, com pitadas de uma boa chanchada. A classificação é livre, pois, passa pior, toda noite, no jornal. Tirem as crianças da sala – spoiler! - O que não falta é sangue pra jorrar no final.
59:12
May 26, 2020
Todo Mundo Pelado
Teich era o alfaiate do rei, que quis roupas novas em meio a crise. Trocou seus ajudantes de ordem e quis se vestir diferente. Rei, vaidoso rei. A missão do alfaiate era costurar seus desejos. Cloroquina, abre tudo, pega arma, vai pra cima, o povo na rua... o povo doente. O rei briga, quer proteger sua família, seus amigos. E diz que “doentes, vamos todos ficar”. Às vezes parece mesmo que só os inteligentes é que enxergam o que se costura. Em uma masmorra, consultório ou ministério, o alfaiate teceu fios invisíveis, vigiado de perto pelos generais. - É o que posso fazer, dizia. Até aqui, ninguém o censurava. Apenas acenavam com a cabeça como se entendessem do riscado, ainda que alvo de olhares atravessados. A ciência não é tecido que se rasgue, embora o verbo rasgue o Rei. Entre a guilhotina e o placebo, melhor que o alfaiate costure, ainda que seja uma roupa que não exista. Trajando exatamente aquilo que pediu, o rei surge na rampa do palácio. Acena aos seus, grita o nome do inimigo, a plateia grita “buu!”. Não é necessário que se abram as câmeras do palácio para saber. Pelados estamos. Só que o rei está nu. #TemMétodo
39:52
May 16, 2020
O Presidente Emboscada
Doutor, o governo joga, eu não quero escutar. Trajamos luto e bebemos crise. Bêbados estamos e o equilíbrio ainda é uma vertigem. A falta de respiradores seca o peito e já não há lonas armadas. Passei pelas praias da Ilha do Governador e estavam todas fechadas. Choramos as mortes sem despedida. Marias, Clarices, mãe gentil. Na ladeira onde desce o rolimã, há um buraco. Dentro dele sambam os convidados do churrasco – é coisa dos home - ao som do ronco dos arroubos de uma nostalgia senil. Bárbaros sem véu, como a namoradinha de um Brazil que não conhece o Brasil. País que tem fome. País que tem raiva. E que, diferente do Aldir, viciou-se na ilusão. Como viaduto, cai a tarde... e que não seja tarde demais para sair de onde estamos. Ainda é tempo de pedir perdão, mas, pra quê pedir se nós mesmos não nos perdoamos?
39:11
May 8, 2020
O Bolsa Família do Jair
Com quantas crises se combate uma peste? Por aqui, são pelo menos três. Na saúde: 6 mil mortos; Na economia: milhões de brasileiros clamando por 600 reais; Na política: imensurável. Agenda cheia, geladeira vazia. Números são números. Um ministro da saúde: não sabe. Um presidente da república: lamenta. Um ministro do supremo: se mete. É como se o freio não parasse a crise. Como se o contra-peso desequilibrasse. É como se o conflito fosse a prova-real de um problema sem solução. E não adianta dar a resposta, o professor precisa saber como se chega ao resultado. A matemática não é ciência exata quando o cálculo é negacionista. Jair tinha dez balas, perdeu a de prata, com quantas ficou?
40:00
May 1, 2020
O novo Bolsonaro e o velho Robespierre
A comparação de um Brasil subnotificado com uma Alemanha que tenta controlar suas mazelas é fábula contada por um ministro que “performa”, mas sequer existe. Diz a lenda que a cidade alemã de Hamelin sofria com os ratos e um flautista trouxe a solução: Em troca de algumas moedas, tocou seu instrumento, hipnotizou os roedores e levou-os à morte. Ninguém quis pagar o flautista, que, injuriado, jurou vingança: soprou sua flauta e levou embora todas as crianças da cidade. Por aqui, o presidente arrisca algumas notas. Entre uma tosse e outra – sustenida – vai escrevendo a partitura: sem “DÓ”, rasga a caneta: muda ministros, grita, hipnotiza e quer a atenção para “SI”. Mas, e as mortes?- Tsc, tsc, tsc... E Flautista “LÁ” é coveiro? Carreatas em marcha à “RÉ” bradam pelo direito à morte. A liberdade é “SOL” que não existe, assim como a fábula do começo. Em Hamelin não há mais ratos: morreram afogados. Em Hamelin não há mais crianças: estão todas presas. Em Hamelin sobraram os ricos. Os ricos, o silêncio e a tristeza. O flautista de Hamelin, por aqui, é um saxofonista de shopping center.
34:37
April 24, 2020
Teich vem para não existir
Uma pandemia de contradições. Economia versus Saúde: Ir às ruas é o remédio proposto pelo governo para salvar a vida de pobres. “A vida não tem preço”: mas reclamam do valor que já foi gasto para combater o vírus. A luta é contra o desemprego, mas um ministro é demitido por fazer seu trabalho. O novo diz estar alinhado ao pensamento do chefe, mas defende o que fazia o, agora, ex-funcionário. A trama da semana se passa em uma lanchonete fast-food que não fechou na quarentena. Explicamos: é o fim do plano de carreira do ex-ministro que ganhou muitas estrelinhas no crachá. Passou pela fritadeira, se queimou. Passou pela limpeza, lavou roupa suja. Passou pelo caixa, mas a economia vem depois. Recolheu as bandejas, tirou o lixo, varreu o salão. Mas foi no atendimento onde se perdeu: quis aparecer mais que o gerente. Matula nas costas, foto de funcionário do mês debaixo do braço, pegou seu colete e se foi. Todo mundo achou estranho, boa parte não gostou: o gerente não quis saber. Diz, agora, que há um Congresso inteiro faminto para que ele deixe o balcão, mas confia em um molho especial – ainda em fase de testes – para recuperar a clientela. Sempre gostou do conflito e não tem problemas em comprar uma nova briga. Entre pedras e flores, socos e pontapés... a chapa esquenta e o novo funcionário já frita. A herança é maldita, a briga é de cachorro. Salve Machado de Assis: ao vencedor, as batatas.
35:54
April 17, 2020
As pestes da peste
Uma história que, talvez, deixe no chinelo as mais criativas canções sertanejas de “sofrência”. Tem briga de marido e mulher – para usar a analogia que o presidente gosta -? Tem. Tem traição, mentiras, ciúme, ligação vazada... Um quer sair o tempo todo, o outro quer ficar mais em casa.... daí brigam. Os amigos já não sabem o que fazer com o casal: limparam as gavetas de um, achando que ele seria chutado de casa. Daí, cobraram do outro que a separação viesse o mais rápido possível. Os vizinhos também não sabem o que fazer: os da frente, julgam, mas só o fazem quando provocados. Os do lado, gostam mesmo é de falar. A politização da tragédia é a própria tragédia da política e o remédio para essa crise não sai da fase de testes. E não é da cloroquina que estamos falando. Testam as instituições, testam os limites do isolamento, testam a paciência das pessoas. Só não testam – de forma suficiente – os pacientes para que saibamos qual o tamanho do drama que vamos cantar no futuro. Na novela da Esplanada, o ministro já morreu e não sabe. Na ficção, talvez pudesse pegar seus R$ 600, dizer que vai comprar cigarro e nunca mais voltar. Mas, na vida real, toda essa “sofrência” mais parece uma marcha fúnebre e que ainda não chegou nem perto do refrão.
32:17
April 10, 2020
As máscaras caem
Quantos presidentes governam o país em meio à pandemia do coronavírus? O que baixa o tom ao se dirigir ao país: prega união e fala sobre a maior crise da nossa geração, ou o que baixa o pau e mostra a caneta: governadores são isso! O ministro é aquilo! Gripezinha! Resfriadinho! Canetada pra todo mundo ir trabalhar. O futuro de Mandetta também desliza na ponta da BIC: é que ninguém é indemissível, embora o desemprego mate mais que doença. Isolamento que aproxima: tem escolta militar na casa civil para responder pergunta de jornalista. Isolamento que une, mas polariza: o governador desafeto do capitão fez as pazes com o ex-presidente condenado a ficar em casa porque sua condenação ainda não transitou em julgado. Mas, e a sentença dada a quem não pode se proteger da doença? Condenados a irem às ruas... é o trânsito a ser julgado. E que não julguem a necessidade. Fome não é jejum: fome é pressa, não promessa. Diferente da justiça, por vidas, quanto mais recursos, melhor. As máscaras estão liberadas... Uma hora elas caem.
33:37
April 3, 2020
O drama da estupidez
O contágio aumenta e o mundo se preocupa com a curva. Aqui no Brasil, ela sobe, mas o piloto quer contorná-la usando a marcha a ré. Imagine uma balança daquelas antigas. Ela está cercada por economistas, infectologistas e políticos. A tentativa é equilibrar... em um prato, a economia. No outro, a saúde. É a mesma balança em que se a carne do churrasquinho de gato vendido na rua, como se o aplicativo não fizesse entrega na Praça dos Três Poderes. Pela economia, são contra a ciência. Pela ciência, trabalham. Pelo trabalho, buzinam. Pelas eleições, fazem de tudo. Pelo bem de todos, se puder, fique em casa.
32:19
March 30, 2020
Excludente de ilicitude moral
Ei, você, amotinado que me escuta, não se preocupe. Venho para excluir de ti a culpa. Veja: estado de necessidade? "Bom, o salário tá baixo. Não tá sobrando no fim do mês" - Então não há crime. Legítima defesa? "Bom, o trator veio na minha direção, eu apenas me defendi. Até o presidente concorda". - Então não há crime. E o estrito cumprimento de dever legal? E o exercício regular de direito? "Bom... bom, aí há crime". - Claro, não pode fazer greve. Não pode depredar, não pode incendiar, não pode mandar fechar comércio. Cobras do estado porque não pode mais. Próximo passo? Cobrar um extra no preço do gás. Mas, confie, amotinado, no Brasil a impunidade impera. Pense em um excludente de ilicitude moral. "Moral? Em pleno carnaval?". - Sim, se procurar acha. Só não cave muito pois o poço não tem fundo. Nesse país o crime é a fantasia. Motim, senador, trator. Tiro, greve, "ponha-se daqui pra fora". Para que tudo vire cinza, a quarta-feira não demora.
34:38
February 21, 2020
A casa servil vai à Disney
De dança das cadeiras todo mundo já brincou. Tem quem prefira a montanha russa da Disney – mas não é pra todo mundo, né ministro? - Há quem prefira o pula carniça. Carrossel vira trem fantasma e é muito “1, 2, 3, lá vou eu” para pouco “1, 2, 3, salve todos”. Dólar alto é bom pra exportação, ruim pra quem compra pão, péssimo pra quem não mede o peso das palavras. Dança das cadeiras é assim: ministro volta a ser deputado, deputado segue ministro, a Casa Civil é chefiada por um militar. O que era telefone sem fio para os que agridem a imprensa virou verdade ou consequência. Ou melhor: verdade e consequência. Disparo em massa não é brincadeira. Mentir em CPMI tampouco. Ministros vão ao Congresso: pera, maçã? Não. Salada mista e receita repetida. Brincam de casinha na casa do povo: vale dar carrinho e chute forte, mas nada de pôr a mãe no meio. Brincadeira é assim, seja em Orlando ou em Cachoeiro do Itapemirim.
35:55
February 14, 2020
O hímen da democracia
No país onde a abstinência é política de governo para evitar a gravidez precoce, não parece haver pudor nas altas castas que comandam. Na terra de Macunaíma, hoje, tentam censurar livros, filmes e jornais. “ai que preguiça”, diria ele. Mas, hoje não. Hoje, na terra de Macunaíma, bradam os justos contra as formas de opressão. Hordas reagem. Riso na cara de quem protesta. É que a democracia é barreira: impede pseudo-imperadores de reinar. De barreiras eles não gostam. Pedra no caminho, espírito do tempo. Cavam, furam, batem e tentam rasgar. Despidos do que você imaginar, eles testam. Andam pra frente dando passos rumo ao passado. E brigam: presidente, governadores, ministros. E brigam: deputados, senadores, juízes. E brigam: esquerda, direita, o centro. O jornalismo resiste. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, descreveu os políticos como uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecidos, que poderiam ser chamados de monstros. Mas ele completa: monstros são quando falamos da incomparável audácia, da sapiência, da honestidade e da moral. Só que, “embora com os homens se pareçam, muito pouco têm de humanos”. Na terra de Macunaíma – hoje - Macunaíma, não teria voz e, com ele, a abstinência não funcionaria: ele é filho do medo e dos medos é difícil se abster.
33:53
February 7, 2020
Morte Simbólica
Sinta o cheiro da fritura. Podem até negar o feitio, mas a receita já é conhecida de outros governos: tem ministro pururucando em gordura borbulhante, mas que já estava morto antes mesmo de morrer. Tipo a caixa preta do BNDES, sabe? E, olha, nem sabemos se morrerão... Nem a caixa, nem o ministro. Morreu aquele que pegou, sozinho, um jato da FAB. Morreu, ressuscitou e morreu de novo. Há um medo de que a morte crie jurisprudência. O fato é que nenhum governo – presente e passado – se vacinou contra essa doença que se chama “regalia”. É que em Brasília funciona assim: às vezes todos os caminhos levam à morte. A nova secretária de cultura, por exemplo: se herda em sua gestão a guerra cultural travada na pasta, morre. Se enfrenta o governo e amplia o diálogo com a classe artística, morre igual. A linha de tiro é inevitável. A morte é simbólica, mas a marcha fúnebre não. Ela ecoa nas esquinas que não existem na capital do país. O ENEM acompanha o cortejo, regado a água suja de torneira. E, lá longe, pelo menos por enquanto, o Coronavírus espera: “melhor nem ir para o Brasil. De morte, Brasília já se basta”.
36:24
January 31, 2020
Água de Cocô
Algo não cheira bem no Planalto: secretária despacha e monta equipe sem tomar posse. Ministro quer aumentar imposto, mas toma enquadro do presidente. Bolsonaro aventa desmembrar o Ministério da Justiça, mas recua. Moro não gostou, nem seus seguidores. Seria o Morismo mais forte que o Bolsonarismo? Será que o Morismo existe? Algo não cheira bem na justiça: enquanto tem jornalista denunciado sem que haja investigação, ministro caneta individualmente e passa por cima do presidente do Supremo, do CNJ e do Congresso Nacional. Mão na bunda que diz? Faz jus ao tema deste episódio. Algo não cheira bem no Rio de Janeiro: a água é uma coisa, a barra do governador, outra. Fossem vivos, talvez Tom e Vinícius não recomendariam aos companheiros que da água bebessem: “Não pode bebeeeer... não pode beber, Camará”.
36:00
January 24, 2020
Balança, mas não cai
A imprensa pode até balançar na rede do descrédito ou na prancha dos piratas da fakenews, mas ela não vai cair. Os governos, esses sim, uma hora passam. Falando em “cair”, caiu em desuso a nossa constituição: a censura voltou ao país, mas a pancada foi passageira. Com a mesma força que veio, a decisão de tirar do ar o Especial de Natal do Porta dos Fundos foi à lona. E veja você, a assinatura da derrubada é do ministro que já quis censurar também. Agentes das instituições operando contra as próprias. A crise se agrava no Oriente Médio, enquanto o nosso ministro das relações exteriores está de férias. Ainda bem que o presidente está ligado no noticiário.... Da imprensa que o ataca. Um olho na gramática, outro na peteca. Aqui a gente não deixa cair.
34:48
January 10, 2020
Fundo eleitoreiro
Na semana que passou, o presidente Jair Bolsonaro falou que não decidiu, mas, entre uma frase e outra, dá a entender que não vetará o fundo eleitoral. O medo é cometer crime de responsabilidade, mas, no fundo, foi o próprio governo que sugeriu os 2 bilhões de reais que serão destinados às campanhas. A fundo mesmo, a prerrogativa de sancionar é a mesma de vetar e o Congresso vai dar a palavra final. A caneta já é dele, mas o jogo parece ser para a torcida, que brada: veta! Veta! Veta! É, quando se trata de financiamento de campanha, há quem deseje, do fundo, que as empresas sigam fora da partida. E aí, entre uma inconstitucionalidade e outra, é que se descobre o pagador da conta. O dinheiro vem do fundo.. do fundo do nosso bolso. O 6º episódio do Podcast “Tem Método” fala de fundo eleitoral, das prerrogativas do presidente, das reformas que estão por vir. O ano é novo, mas os problemas são bem antigos.
32:29
January 3, 2020
O teatro dos hipócritas
Quem bradou contra a corrupção ontem pode ser cassado por abuso de poder econômico hoje. Quem afirma que é perseguido e que a crise é inventada, não é capaz de enxergar os corredores de hospitais lotados sem que haja profissionais para atender... Sem que haja dinheiro, aliás, para os pagar. Quem critica o presidente hoje, surfou na onda dele nas últimas eleições. Quem defende o aperto nas contas, aprova aumento de salário para a própria casta. Quem critica saudações a ditadores, homenageia ditador também. Quem acusa governo de afundar a política externa, participa do afogamento mesmo sem perceber. Nesse episódio falamos da crise da saúde no Rio de Janeiro, da cassação do mandato da senadora Selma Arruda, das hipocrisias que norteiam o pensamento político e alguns cenários para as próximas eleições.
45:50
December 13, 2019
O espírito do tempo
É espírito do nosso tempo que investigados culpem os mensageiros por eventuais crimes cometidos que vêm à tona. É espírito do nosso tempo culpar aqueles que vieram antes pelos problemas de agora. É espírito do nosso tempo adiar discussões importantes para legislar em causa própria. Nosso tempo demanda arrocho, mas o espírito dos nossos parlamentares é mais ambicioso... Só que em causa própria. Nesse episódio falamos do fundo eleitoral, da amizade de Bolsonaro com Trump, sobre as reformas que não saem do papel e o papel feio que fizemos no PISA.
42:12
December 6, 2019
A Democracia não é uma tradição Brasileira
30 dias para 2020, mas a semana nos remete aos anos de chumbo, quando repercutimos os principais fatos dela, e ao começo do século passado, quando discutimos o acesso a água e esgoto no Brasil. Da coletiva silenciosa da ministra Damares ao “perrengue” vivido pela esposa do deputado que ganha R$ 33 mil por mês, Carlos Andreazza e Ivan Brandão mostram que, para não fugir de nenhum assunto... Tem Método.
48:28
November 29, 2019